sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O Cativeiro de Deus

Deus está preso! Não, não é a ressurreição de Nietzche que declarou "Deus está morto", mas algo parecido ou talvez mais próximo disso: é simplesmente a minha reflexão de vida. Nesta caminhada teológica, que já ultrapassa os 30 anos, ouvi professores das muitas linhas teológicas e diversos outros pregadores, li livros que falavam sobre Deus, tornando-me um leitor assíduo e cheguei a uma conclusão: Deus foi colocado em um tubo de ensaio - Ele está
preso. Fiquei e continuo a ficar impressionado com a maneira com que as pessoas dissecam Deus com tanta facilidade. Fico boquiaberto quando leio diversos livros e ouço professores. Fico atento a discursos de teológicos falando e explicando Deus. É como se tivessem construido Deus, esquecendo-se que são seres humanos criados por Ele. Será que Freud estava certo? Creio que não. Descobri que Deus está preso na impressão emocional e mirabolante de uma teologia pentecostal, onde surge a figura do super-herói que impedirá
a calamidade que prediz a humanidade. Descobri que Deus está preso no raciocínio lógico do protestante ou do evangelical, sem falar no fundamentalista, que diante dos silogismos e sofismas, conseguem defender a pessoa de Deus, colocando-O a salvo das incertezas daqueles que, segundo esses fundamentalistas, profanam a Deus e ao pensamento teológico
estabelecido quando questionam, pensam, e sofrem em busca do transcendente, como se isso não fizesse parte da busca e do reconhecimento natural do ser e que foi colocada pelo próprio Deus. Tudo se encaixa. Não há mistérios. O totalmente outro está explicado. Como um quebra-cabeça divino, a essência divina e os seus atributos divinos são expostos, com clareza e justeza. Os paradoxos, as antonímias, tudo está explicado. Deus está a salvo na sua prisão e ninguém o incomode. Ele sempre estará assim e agirá dessa forma. Essa é a explicação. A impressão que tive era que eu sabia chegar a conhecer muito bem a Deus e como Ele age em relação a sua criação, como se o script divino já estivesse definido. Sempre Ele funcionaria ao meu favor, porque assim aprendi e de outra forma não poderia agir. Eu aprendi, segundo a
religião, a ler o manual de Deus. O script da sua ação na história da humanidade nunca teria mudanças. Agora eu tinha e podia ensinar o mapa que durante séculos os profetas, videntes e mágicos desejaram descobrir. Mas esqueci de aprender a respeito da multiforme graça de Deus, dos absurdos divinos, tais como pedir a um dos seus profetas para casar-se com uma
prostituta, ou permitir que seu Santo Filho se misturasse com as prostitutas, cegos, coxos e endemoninhados, e criticasse os teólogos e exegetas rabínicos, ou permite que uma mulher fosse atrás do seu amor como a moabita Rute o fez. Além disso, Ele deixa inserir nas letras sagradas do Seu livro o corpo erotizado pelas carícias amorosas do casal dos poemas dos
Cânticos dos Cânticos, leitura ausente nos cultos, pois muito "crente brasileiro" odeia o corpo, pois, segundo a sua teologia, ali reside o mal. 
Na continuação desta caminhada teológica descobri que, segundo a religião, não somente eu tinha o script da ação de Deus, mas ele estava em minhas  mãos. Mas agora eu também aprendi algo mais: descobri como o homem, resultado da ação e criação de Deus deveria se comportar nas diversas áreas  da sua vida. Não somente Deus foi colocado num tubo de ensaio para ser dissecado, mas também a sua criatura seguia pelo mesmo processo. Também é necessário planejar e determinar as ações da criação de Deus, o que pode ser
feito ou não. O objetivo do ser humano, segundo o script descoberto é: um homem ou mulher perfeitos, excelentes cristãos, bom cônjuges, excelentes pais, ótimos cidadãos e vizinhos exemplares, alvos dignos de serem alcançados, desde que não se viva somente no mundo idealizado pela religiosidade. Mas ele tem sido mais perigoso, pois muitos seres humanos
adoeceram numa procura sádico-masoquista em agradar a religião e não a Deus, pois foi esquecido de ensinar a vivenciar a humanidade. Foi esquecido de ensinar sobre a dor, lágrimas, depressão, doenças, medo e morte. Em razão desse esquecimento fatal surge a necessidade de fórmulas mágicas que operem a favor do ser humano, como roteiros de vidas bem sucedidas, planos de vitórias, escadas para o sucesso, guias espirituais, a doutrina correta, o comportamento estilizado, sonhos divinos, propósitos, etc. Foi esquecido de
dizer que nós sofremos, que somos limitados e que o pecado de perto nos rodeia e embaraça a nossa caminhada. Foi esquecido de ensinar sobre simplicidade da vida e da graça de Deus. Foi esquecido que cada individuo é único, não há outro igual. Esqueceram de olhar a realidade da vida com os olhos da graça divina. Foi esquecido de ensinar que a história do homem com
Deus não se repete, mas se cria no relacionamento pessoal com o Grande Eu Sou. Agora Deus está preso e, consequentemente, o homem também. Em defesa de uma teologia ortodoxa, esqueceram de ensinar uma teologia humana. Em defesa de uma teologia espiritual se esqueceram ensinar uma teologia da vida com cheiro de gente e com um Deus encarnado entre os homens que também sentia dores, como é visto no jardim Getsêmani. A teologia ficou presa por si mesma. Assim ela não conseguiu crescer, não conseguiu quebrar os limites que
o sistema lhe impôs e morreu por inanição, pois não tinha a vida para alimentar-se. Além disso, a teologia engordou e morreu por falta de exercício. Não se alimenta, mas engorda, é a contradição do pensamento repetitivo disciplinado pela ortodoxia da letra e não a ortodoxia da graça. A teologia ficou estagnada, parou, secou, azedou, isto é o fruto da monotonia teológica. Durante séculos tentou-se responder sempre a mesma pergunta, sempre da mesma maneira e sempre com a mesma resposta. Repetir não é pensar. Então o epitáfio da teologia do sistema que enclausurou Deus foi escrito e anunciado: Deus está preso. O último teólogo sistemático devia ter fechado o livro do sistema ou colocado um cadeado no calabouço do Divino. Devemos entender que somos seres mortais, porém livres. Somos chamados, convidados e podemos pensar. Podemos entrar e desfrutar da multiforme graça de Deus e permitir que Ele reja a sua criação libertando a criatividade humana que, embora marcada pelo pecado, não deixou de ser criação de Deus. Agora podemos ver o Deus Criador, criando como no principio e declarando que onde está Espirito do Senhor, alí há liberdade. Liberdade de expressar a
multiforme graça de Deus que age sem script e não se pode colocar num tubo de ensaio. A descoberta da multiforme graça de Deus quebra as grades das cadeias dEle e se manifesta na gargalhada de Jesus quando exultava ao Pai, pois as coisas ocultas eram reveladas aos pequeninos. Esta multiforme graça deixa o vento soprar para onde Ele quiser. Reaprender teologia? Não. Construir novos caminhos? Sim. Descobrir a multiforme sabedoria e graça de
Deus, esse é o desafio para hoje. Sejamos “vidologos” e não mais teológos. Encarnemos a teologia como vida que convida a viver a vida em abundância de Jesus, aqui e agora, e não esperar o mundo atemporal para vivenciar a graciosa glória de Deus. A graça de Deus, não pode ser subjugada pelo pensamento humano, por mais correto e ortodoxo que este se apresente. O totalmente outro se aproximou de nós para vivenciarmos prazer, graça, paz,
harmonia, satisfação e também gosto pelo gosto de viver.